Cuiabá, 15 de novembro de 2019

Isso é Notícia

MENU

CONTRA O PRECONCEITO

"A gente não vai voltar pro armário", diz presidente de Ong LGBT

Erro na Linha: #12 :: Undefined variable: charge_title
/home/issoenoticia/public_html/themes/issoenoticia/inc/sharebox.php
Victor Ostetti/MidiaNews

Murilo Alberto é presidente da Ong Livremente

MIDIANEWS MIDIANEWS

www.midianews.com.br

O Governo do presidente Jair Bolsonaro tem um discurso que reforça a tese de que não existe LGBTfobia no Brasil. A opinião é do presidente da Ong Livremente, Murilo Alberto. A Ong atua há 17 anos na defesa da população LGBT.

“Hoje nós temos uma presidência que reforça essas falas de que não existe LGBTfobia, o famoso “mimimi”, mas a gente não consegue nem rebater isso com os dados porque a figura do presidente também reforça que esses dados não são reais”, diz Murilo.

Ele aponta retrocesso nas políticas públicas no Brasil. “O movimento estava conquistando espaços legítimos na sociedade, se rearticulando em conselhos nacionais. Por exemplo, dentro do Ministério da Saúde o Governo desarticulou a secretaria de HIV e Aids. Dentro de um recorte gay, o índice de novas infecções está dentro da população LGBT, infelizmente isso era uma realidade que não existia mais, mas que voltou por falta de políticas públicas”, disse.

Apesar disso, ele afirma que o movimento vai manter o processo de resistência. “É um cenário novo, mas a gente não vai voltar pro armário”.

MidiaNews -  Qual exatamente o trabalho desempenhado pela Ong Livremente?

Murilo Alberto - A Ong surgiu há 17 anos. Naquela época os LGBTs não tinham muita inserção na mídia, as marcas não levantavam a bandeira como se vê hoje.

No começo surgiu para falar dos LGBTs. Era um espaço interno para dialogar sobre as vivências de cada um. Hoje, desde que a Ong foi para o primeiro congresso nacional, nosso principal trabalho é fazer denúncia sobre o universo LGBT e propor políticas públicas também.

Para você denunciar é preciso dialogar com o Estado, com os governos, para começar a se desenhar as políticas públicas para a população LGBT. Nosso trabalho é cobrar do poder público seu papel.

A gente tem uma atuação municipal, mas também estadual. A Livremente surgiu propondo a primeira Parada da Diversidade. Então a Ong vem acompanhando a Parada da Diversidade desde quando ela surgiu. A Ong Livremente vem puxando a parada há 17 anos. Hoje outras instituições também compõem a coordenação, mas é importante lembrar quem deu o pontapé inicial.

MidiaNews - Como vocês atuam junto ao poder público?

Murilo Alberto - Durante muito tempo a gente apagava fogo, que é quando acontece um caso isolado e nós íamos até a delegacia, fazíamos toda a repercussão e acompanhamento do caso. 

Hoje nós temos instrumentos para fazer essas cobranças. Existe em Cuiabá o Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual, que é um instrumento dentro da esfera do poder público em que a Ong possui cadeira.

Estamos inseridos também no Fórum de Aids, onde também podemos fazer cobranças a favor da população LGBT dentro desse recorte. Como eles são tratados, como está a questão da distribuição de medicamentos, das novas tecnologias de prevenção.

Então basicamente a gente ocupa esses espaços, essas redes, esses fóruns e até mesmo o Conselho Municipal para conseguirmos cobrar a efetivação dessas políticas e acompanhar de perto todo o desenrolar.

MidiaNews - Para você nos últimos anos houve mais avanços ou retrocessos no combate a LGBTfobia no Brasil?

Murilo Alberto - Dentro da sigla LGBT, nós temos realidades distintas. Então se falarmos em termos de conquistas, nós temos poucos relatos e eles vieram por vias jurídicas.

Então quando o Poder Judiciário vem regulamentar direitos que já eram nossos, assegurados pela Constituição, como casamento e proteção contra discriminação, particularmente não acho que isso seja um avanço. Na verdade isso é só a garantia de um direito que já estava sendo violado.

Pensando nessas realidades, um homem gay, cis, viver em sociedade parece que está normal, mas às vezes a gente pega casos que destoam do que a gente vivencia. Recentemente li sobre um casal gay que trocou um beijo e levou quatro tiros.

Então a gente vivencia essas atitudes e o cenário atual do governo é de favorecimento, de reforço a esse tipo de discurso e de prática.

Midia News – Você acredita que o discurso do presidente Jair Bolsonaro incita a LGBTfobia?

Murilo Alberto - Hoje nós temos uma presidência que reforça essas falas de que não existe LGBTfobia, o famoso “mimimi”, mas a gente não consegue nem rebater isso com os dados porque a figura do presidente também reforça que esses dados não são reais.

Dados científicos, que vêm da academia, ele desconsidera e vem com o discurso de que dados da academia são de comunistas.

O movimento estava conquistando espaços legítimos na sociedade, se rearticulando em conselhos nacionais. Por exemplo, dentro do Ministério da Saúde o Governo desarticulou a secretaria de HIV e Aids. Dentro de um recorte gay, o índice de novas infecções está dentro da população LGBT, infelizmente isso era uma realidade que não existia mais, mas que voltou por falta de políticas públicas.

A gente está em um governo que não é mais favorável a esse tipo de políticas. Esse cenário é complicado para nós que já vivemos no movimento há muitos anos. Mas a gente não deixa de se fazer presente e a parada é uma resposta a isso.

É um cenário novo, mas a gente não vai voltar pro armário, estamos em um processo de resistência dos direitos adquiridos.

MidiaNews - Em 2018 a violência contra LGBTs aumentou 66% em Mato Grosso comparado ao ano anterior, de acordo com dados do Grupo Estadual de Combate aos Crimes de Homofobia. Na sua visão a Polícia do Estado está preparada para combater esses crimes?

Murilo Alberto - A criminalização da LGBTfobia veio do Supremo Tribunal Federal (STF), mas precisamos enquadrar e aplicar esse decreto dentro dos serviços para os cidadãos que passam por um caso de LGBTfobia. 

A partir do momento em que o cidadão aciona a Polícia, ela precisa estar preparada para receber o cidadão, às vezes tratar pelo nome social. Isso já era uma normativa do Governo Federal, mas aplicando-se na realidade, isso não é respeitado dentro das delegacias.

Hoje nós mantemos contato com o major da PM [Ricardo] Bueno, que faz parte do Grupo Estadual de Combate a Homofobia, para levar uma capacitação à Polícia Militar para lidar com esse tipo de crime, fazer os encaminhamentos corretos.

Eu já ouvi relatos sobre travestis que se envolvem em alguma briga ou outra. E quando ela é encaminhada até a delegacia, não tem respeito dentro do espaço. Mas quando chega algum agente dos direitos humanos, presidente do conselho, ela começa a ser humanizada  

MidiaNews - A Parada Gay deste ano vai abordar o mercado de trabalho para os LGBTs. É mais difícil arrumar emprego sendo LGBT? Há diferenças salariais também? 

Murilo Alberto - Para onde existem mulheres e LGBTs em massa no mercado de trabalho, aquela posição de trabalho está sucateada. Geralmente são os menores salários ou ocupações que demandam mais tempo, ocupações desgastantes, que outras partes não querem ocupar.

O tema da parada vem como: “Somos muitos podemos estar em qualquer posição”, para reforçar isso. Para a população LGBT estar inserida dentro de uma posição no mercado de trabalho, é preciso reivindicar espaços dentro do sistema educacional. Isso não está desvinculado dentro de cobrar mais curso de capacitação específicos, de cobrar melhoria no serviço de educação.

Quando uma pessoa LGBT se candidata a um cargo de liderança, ela precisa dobrar seu esforço para mostrar sua capacidade, mais que uma pessoa que não é. Porque ele já é julgado e confrontado pelo fato de ser LGBT, esse estigma do mercado de trabalho é muito forte. 

Hoje se a gente fizer um recorte da população desempregada, vai encontrar muito LGBT. Porém nos queremos deixar a margem da sociedade e ocupar as empresas. 

MidiaNews – Qual o sentimento que a Parada deste ano vai trazer para quem participar?

Murilo Alberto - Nós viemos no sentido de reforçar essa ideia luta, nós queremos contribuir com a economia do País, queremos gerar impostos, renda, fazer a moeda circular. Nós queremos participar da roda da economia, nós não queremos ficar nos postos de mercado de trabalho informal, nós não queremos mais essas barganhas. O lema que nós vamos carregar é “Demita seu preconceito”.

Então, os LGBTs podem e devem sonhar com o curso superior, técnico ou profissionalizante, nós precisamos sair da margem da sociedade e ocupar as empresas.

MidiaNews – Apesar de essa ser a décima sétima edição da Parada da Diversidade, vocês decidiram não usar a numerologia 17, que representou o então candidato Jair Bolsonaro na urna eletrônica.

Murilo Alberto - Não usar a numerologia vem de encontro com quando a criminalização da LGBTfobia aconteceu e o presidente Jair Messias Bolsonaro citou que a criminalização seria péssima para a comunidade LGBT porque iria desempregá-los.

A partir de que ponto a criminalização está associada com empregabilidade da população LGBT? O único ponto de interpretação que eu consigo ter é que agora o patrão não vai mais poder ser preconceituoso dentro das empresas. As “piadas” vão precisar parar. A partir do momento que a piada constrange, ela não é mais uma brincadeira.

Leia matérias relacionadas:

Comente pelo Facebook!

Comente pelo site!

Olá, deixe seu comentário para

Enviando Comentário Fechar :/