Cuiabá, 21 de março de 2019

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MERCADO AUTOMOBILÍSTICO

A história de Amaral Gurgel, o brasileiro que fabricou carros 100% nacionais

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JOEL PAVIOTTI JOEL PAVIOTTI

Professor na rede estadual de São Paulo

Em 1926, nascia, na cidade de Franca, um dos maiores empresários e brasileiros da história do país. Filho de uma família da classe média, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel teve uma infância relativamente confortável.

Ao iniciar o período escolar João se destacou no ensino básico e aos 18 anos ingressou na escola politécnica de engenharia de São Paulo, conhecida como Poli.

Foi na instituição que logo nos primeiros anos de estudos passou a planejar, como trabalho de conclusão, o projeto de um carro que fosse 100% nacional, o nome do veículo era Tião, em homenagem a um dos apelidos mais famosos do país.

Quando Tião estava prontinho no papel, o professor de Gurgel lhe disse: "Carro não se fabrica no Brasil, Gurgel, carro se compra". Motivo de riso para outros colegas, Gurgel não deu bola para as palavras de seu orientador e, após se formar, conseguiu ingressar em uma pós graduação nos Estados Unidos. Foi no país Yankee também que Gurgel trabalhou como projetista na fábrica da General Motors, adquirindo, dessa forma, habilidades indispensáveis para a engenharia automotora.

Ao voltar ao país, o engenheiro passou a acelerar o planejamento e desenvolvimento do seu sonho de juventude: conseguir fabricar carros no Brasil, em uma montadora 100% nacional. Para viabilizar o projeto de vida, Gurgel conseguiu alguns investidores, tirou dinheiro da poupança(que havia guardado por anos), e montou em São Paulo uma montadora que fabricava, a principio, carros para crianças e karts.

Com muitos contatos com grandes montadoras, João, no inicio dos anos 70 já conseguia fabricar a maior parte dos componentes de um veículo, faltando a ele apenas a tecnologia necessária para a construção de um motor. Foi então que o empresário trocou alguns projetos de sua autoria com a Volkswagen, e conseguiu, da gigante montadora Alemã a concessão dos motores necessários para construir o primeiro carro "Gurgel".

Mudando sua fábrica para um local próprio e bem maior que as antigas instalações, Gurgel deu inicio a fabricação de seus primeiros carros utilitários. 

Seus pioneiros veículos tinham o nacionalismo do projetista estampados nos nomes, foram lançados carros com nomenclaturas de origens Tupi, como: Xavante, Carajás, entre outros.

O diferencial do produto era sua lataria feita de fibra reforçada de vidro, material, que segundo o proprietário, era quase que indestrutível perto de outras carcaças de automóveis feitas por montadoras internacionais. Gurgel chegou a ir em programas de tv dar marretadas na carroceria de seus veículos, visando mostrar a resistência do material.

No inicio dos anos 80, em um período de crise, a fábrica Gurgel S/A vendia veículos automotores para toda a América Latina e até mesmo para países do oriente médio, como Árabia Saudita e o Irã(que na época passou a boicotar carros Estadunidenses). Foi nessa fase que a montadora cresceu chegando a fabricar a média de 1000 carros por ano e abrangendo um mercado de aproximadamente 40 países.

Terras são para dar o que comer pra população, não pra plantar matéria-prima pra combustível de carro

Após essa turbinada nas vendas, em 1981, a Gurgel foi a responsável por lançar o primeiro veículo elétrico da América Latina. O modelo possuía um nome bastante curioso: Itaipu E-500. A pequena Van elétrica era recarregada em uma tomada doméstica, mas seu desempenho não era dos melhores, não ultrapassando os setenta quilômetros por hora, o que diminuiu bastante o interesse dos consumidores.

Apesar do mundo ainda viver uma crise no preço do petróleo, com uma alta significativa devido à Revolução Iraniana, o Estado brasileiro preferiu se aprofundar no projeto Pró-Álcool do que fomentar o sonho de Gurgel em produzir bons carros elétricos. O empresário chegou a fabricar modelos movidos a etanol, mas se posicionava contra o projeto, pois para ele: "Terras são para dar o que comer pra população, não pra plantar matéria-prima pra combustível de carro".

No ano de 1986 a empresa lançou dois belos modelos chamados de Tocantins e o Carajás, um veiculos “utilitário-esportivos” que utilizavam um motor VW 2.0 a água e com tração traseira. Os modelos tiveram bastante aceitação por parte dos consumidores chegando, até mesmo, a fazer parte de frotas oficiais de órgãos públicos e polícias. Inclusive a venda desses carros aumentaram consideravelmente em regiões litorâneas, pois suas latarias tinham grande resistência à ferrugem.

Já com um sucesso estabelecido a empresa começava a trabalhar em segredo para realizar o sonho de seu proprietário: construir um carro produzido todo com tecnologia nacional. E em 1987 o sonho se concretizou. Naquele ano Gurgel apresentava o produto de uma vida, o veículo conhecido como Carro Econômico Nacional, o CENA, que entre suas maiores qualidades objetivava ser econômico, durável e garantir que boa parte dos brasileiros tivessem acesso ao produto.

O nome do veículo fazia alusão ao grande piloto Ayrton Senna, o que fez a família processar a fábrica. Foi então que o carro mudou de nome para BR-800, entrando para a história como o primeiro automotor 100% nacional comercializado de forma utilitária no país.

O feito da empresa foi tão grande que, o Governo Federal, de maneira solidária, e para incentivar a compra, aceitou que o carro pagasse apenas 5% de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), enquanto os demais carros pagavam 25% ou mais dependendo da cilindrada. A atitude foi uma forma de valorizar o produto e a tecnologia nacional.

O BR-800 possuía carroceria de fibra de vidro sobre um chassi tubular. O motor tinha dois cilindros e era refrigerado, além de possuir um carburador e ser movido a gasolina. Sua força chegava a “incríveis” 33 cavalos. Alcançando até 120 km/h e fazendo incríveis e inigualáveis 25km por litro de gasolina.

Apesar de todo o otimismo que circulou o projeto, um dos principais objetivos não foi atingido: o preço. Nos primeiros anos, todas as unidades fabricadas eram voltadas a quem comprasse algum lote de ações da Gurgel. Mesmo com esse sistema de comercialização, o sucesso do carro foi imediato, existindo, inclusive, quem conseguisse revende-lo com até 110% do que fora investido na empresa, conseguindo desta forma um pequeno lucro em cima do produto.

Após alguns anos de percalços, finalmente as vendas do BR-800 aumentaram suficientemente para assustar gigantes montadoras internacionais, como a VW, General Motors e Fiat. Essas empresas pressionaram o governo brasileiro que, através do presidente Fernando Collor de Mello resolveu isentar todos os carros com motores menores do que 1000cm³ do pagamento do IPI (em uma espécie de traição à Gurgel).

Assim a Fiat, já visando destruir o carro brasileiro, lançou quase instantaneamente o Uno Mille, pelo mesmo preço do BR-800, mas que oferecia mais espaço e desempenho. No inicio dos anos 90 o Brasil, adotando políticas neoliberais, abriu grande espaço para a importação de produtos internacionais, o que reforçou a ideia de que produtos brasileiros não prestavam, pensamento que ainda habita a mentalidade coletiva no país.

O golpe fatal no sonho de Gurgel veio em 1992 quando a VW lançou o veículo gol 1000 e a General Motors produziu o Chevette Junior, minando de vez o poder de competição da montadora.

Reprodução/Jornal do SBT

Fábrica da Gurgel, em pleno vapor, na década de 80

Fábrica da Gurgel, em pleno vapor, na década de 80

Com a diminuição significativa nas vendas e falta de investimentos, a Gurgel pediu concordata em julho de 1993, quando o engenheiro implorou ao governo federal a liberação de um financiamento de 20 milhões de dólares à empresa, mas este foi negado, e a fábrica foi declarada falida em 1994. E fechou as portas definitivamente em 1996. Era o fim do sonho de uma vida, construído a partir de muita coragem, talento e perseverança.

João Augusto Gurgel, decepcionado com a falência de seu grande sonho, passou a oferecer palestras e dar consultoria à empresas nacionais e internacionais. O principal assunto abordado em suas fala era como concretizar um sonho através do empreendedorismo e convencer possíveis clientes da qualidade de seus produtos.

Mas sua vida como palestrante não durou muito, pois alguns anos após o fechamento da empresa, Gurgel descobriu sofrer da doença de mal de Alzheimer. Em 2009, após uma vida inteira de dedicação a um projeto, concretizado mas desvalorizado pelo Estado e população brasileira, João Augusto morreu em sua casa na cidade de São Paulo. Em seus últimos dias de vida, mesmo com o cérebro debilitado pela terrível doença, ele falava constantemente sobre o BR-800, o projeto de sua vida , que hoje temos a honra de relatar nessa página.

Bom, de nossa parte, entendemos que vale a pena lutar por um sonho, mesmo que ele seja muito difícil de se realizar. Pois mesmo com esses desdobramentos lamentáveis descritos acima, conseguimos ver a boa qualidade dos produtos da empresa quando, esporadicamente, encontramos por aí um Gurgelzinho forte e corajoso resistindo firmemente em meio ao transito nas ruas das pequenas e grandes cidades do Brasil.

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