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OPINIÃO JOSÉ PEDRO GONÇALVES

Pátria a(r)mada

Ninguém se arma com a intenção de, apenas, exibir seu estoque bélico

30/07/2021 às 14h36
Por: Redação 3 Fonte: JOSÉ PEDRO GONÇALVES
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Pátria a(r)mada

Ao ler este texto, provavelmente você estará se deparando com uma dupla interpretação em seu título, pois realmente há essa dupla leitura.


A primeira delas é a mais evidente, a que trata de uma pátria dotada de um aparato bélico considerável a ponto de se sentir realmente armada, o que significa que está pronta para o enfrentamento de uma luta com utilização de armas de fogo.

 

Ninguém se arma com a intenção de, apenas, exibir seu estoque bélico como ornamento ou, talvez, como elemento de dissuasão. Então devo perguntar, dissuadir quem e do quê? Ou seria hoplomania? Ora, se o que nos deve mover é uma vida de paz e tranquilidade, pois esta deve ser a razão de uma existência que permita a plenitude da condição humana, por que deverei ter armas que possam eliminar alguém?  


Diante disso, penso eu, e acredito muito nisso, que possuir uma arma é ter aprioristicamente uma finalidade objetiva, seja ela qual for, mas esse enquadramento sempre traz em si mesmo algo do qual acredito ser dispensável. Ah! E se um ladrão invadir minha casa?

 

Então estarei oferecendo em grande monta uma possibilidade de o ladrão levar consigo  a minha arma, pois é o que tem acontecido costumeiramente.


A segunda leitura interpretativa é aquela que fica fora do parênteses, que foi colocado ali para aprisionar o r da arma. Arma sem r transforma-se em ama, que é o que enfaticamente pretendo abordar. Assim, essa pátria armada, que ninguém ama, pois aqueles que tem em si mesmo, como valor imanente, o respeito e aceitação do outro como legítimo outro, não ama armas, ama o próximo, como pregou o Cristo.


Afinal, por que estou tratando deste tema em plena pandemia?


As evidências demonstram algumas práticas que corroboram a intenção, agora não mãos disfarçada, do suserano em armar esta pátria. Após tantas facilitações para aquisição desse aparato bélico que deveria ficar exclusivamente com as forças ditas armadas, o mandatário oferece indicativos de pretender armar os agricultores.

 

Hoje no dia que deveria ser comemorado com apoio, incentivo, agradecimentos, a eles, os que realmente matam a nossa fome e nos garantem tudo aquilo que nos alimentam, os AGRICULTORES. Para o governo, o que indica essa comemoração é um jagunço armado com uma espingarda nos ombros, numa demonstração clara de que os agricultores são pessoas armadas que estão prontas para um embate mortal.


A mimosa alegação da tal secretaria de comunicação afirma que pretendia insinuar uma segurança ao homem do campo, oferecida pelo governo. Como a repercussão foi absolutamente negativa e inaceitável, mudaram rapidamente a imagem do tal jagunço para uma gráfico tentando iludir o obvio.


O que garante segurança em qualquer lugar deste Planeta, quase perneta, é a certeza de uma justiça que não traga em sua funcionalidade uma prática gongórica, rebuscada, cheia de ornamentos cujo resultado é a prescrição por decurso de prazo. Dito de outro modo, ela demora tanto que algumas vezes, só os netos, talvez nem eles, conseguirão obter um resultado. Especialmente na justiça agrária.


Retomando a razão do texto, uma Pátria para ser amada necessita, antes de tudo de educação em seu sentido maior, a construção de cidadãos dotados de autonomia, que é a capacidade de se autogovernar, escolher seus próprios caminhos e traçar seu próprio destino. Com a educação, todo cidadão fica livre das meias verdades proferidas por políticos defensores da ideia de que povo armado é povo livre. Livre de quê?


Só o conhecimento liberta uma pessoa da ignorância, que é a incapacidade de perceber as coisas como elas são, tornando-se presas fáceis dos enganadores que se aproveitam disso para auferir lucros e vampirar o mínimo do que possuem.


 É da educação, do conhecimento e da autonomia que a liberdade se manifesta, permitindo uma imprensa livre, condições de possibilidades do desenvolvimento civilizatório de qualquer povo e de qualquer nação.


Quando alguém se preocupa fortemente com armas de fogo, provavelmente não está preocupado com a saúde, com a educação nem com a vida dos circunstantes.  


A existência de governos é, ou deveria ser, a necessidade de se delegar a alguém o cuidado das coisas públicas, a res pública. Por essa razão, os governos, todos e em todos os níveis, tem como DEVER, cuidar da vida das pessoas que escolhem, pagam e os mantêm no poder. Isso tem nome, chama-se CUIDADO, que é e busca permanente de superação das vulnerabilidades inerentes à condição humana.  


Este é o dever, a responsabilidade e deve ser o compromisso impostergável de qualquer governante. Quando o governante cuida apenas de suas coisas de seus interesses, perde a legitimidade, torna-se um usurpador, um déspota, alguém que perdeu a confiança do povo por ser um perjuro ao descumprir o juramento de respeitar e cumprir a Constituição da República, que é o mapa do caminho de todos os governantes.

 

E a nossa Constituição é bastante clara, determina a cada cidadão o seu papel na vida nacional, deixando cristalinamente declarada a responsabilidade dos governos, tanto os municipais, estaduais e o governo federal.


A alegação falaciosa de restrição de atuação na pandemia carece de qualquer fundamento. Só o suserano e seus seguidores permanecem nessa cantilena fantasiosa com a intenção de nos iludir a todos, que os seus crimes de omissão, que redundou na morte de mais de meio milhão de brasileiros. Tudo para tentar esconder a sua irresponsabilidade, mas, provavelmente, também para ocupar o tempo do não fazer para se propagandear como candidato à reeleição.


A PÁTRIA AMADA e desarmada, mas dotada de tirocínio, tem raciocínio suficiente para impedir o retorno de um demente como o próximo presidente.
Já disseram que faço parte do grupo que atira pedras no governo. Minhas palavras não são pedras, mas certamente conseguem ferir mais do que pedradas reais, por ser a expressão de um sentimento que permeia a sociedade brasileira. Quando os ditos letrados não conseguem perceber a situação de nossa Pátria bem amada e desarmada, é porque as coisas não andam muito bem no reino da Dinamarca.


Em se tratando do Dia do Agricultor, que foi desrespeitado pelo governo, que insiste em perpetuar nas mãos de poucos, o destino das terras brasileiras, relembro algo que foi proposto por alguém que realmente amou a sua terra, a sua pátria e a vida no Planeta, Aldo Leopoldo, que em seu livro a Ética da Terra declarou: “A civilização não é, como muitas vezes se possa crer, a dominação de um território de forma permanente e definitiva, mas sim uma cooperação mútua e interdependente entre animais humanos e outros animais, plantas e solo, que pode ser interrompida a qualquer momento pelo fracasso de qualquer deles”.


A única parceira dessa relação cooperativa que continua fracassando é o ser humano e sua fome perversa de poder para explorar os demais parceiros.

José Pedro Rodrigues Gonçalves é doutor em Ciências Humanas.

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