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OPINIÃO ENOCK CAVALCANTI

Romualdo Jr, um típico caititu na política de Mato Grosso

Em Mato Grosso, ser caititu é uma forma de tirar proveito da política e que tem garantido a fortuna de um seleto grupo de sanguessugas que sobrevivem às custas do dinheiro do contribuinte

11/11/2021 às 17h24
Por: Redação 3 Fonte: ENOCK CAVALCANTI
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Romualdo Jr, um típico caititu na política de Mato Grosso

Processado pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso por possível envolvimento em corrupção na Era Riva, como um dos dirigentes e caititus da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, o deputado Romualdo Jr, aos 61 anos, anuncia sua aposentadoria no Folhamax, o saite que mais intensamente documenta as idas e vindas da vida política e judicial de Mato Grosso, sob o comando do jornalista Cláudio Moraes, hoje um empresário muito bem sucedido no jornalismo e fora dele. 

Romualdo Jr, com Cláudio Moraes como seu porta-voz, anuncia que não pretende disputar reeleição em 2022 mas fala em eleger para sua vaga como deputado estadual seu dileto irmão Juliano Jorge, atualmente comandando a Metamat Mineração, com as bençãos do governador Mauro Mendes.  

O fato é que os processos contra Romualdo Jr não avançaram, a Era Riva foi se confundindo com a Era Jayme Campos, com a Era Maggi, com a Era Silval, com a Era Mauro Mendes, com a Era Eduardo Botelho - e ele se despede das disputas eleitorais certamente com um sorriso nos lábios. Pode até, quem sabe, num rasgo de ironia dizer como o imperador romano Júlio César (49aC/44aC): 'Vim, vi e venci'.  

Como curiosidade adjacente, lembrar que o caititu (nome científico: Pecari tajacu, Tayassu tajacu ou Dicotyles tajacu) é um tipo de porco-do-mato cuja presença já foi anotada nas matas dos mais diversos continentes. Distribuem-se desde o sul dos Estados Unidos, passando por toda América Central e América do Sul a leste dos Andes, até o norte da Argentina. Esses animais habitam uma grande variedade de ambientes, como áreas desérticas e campos abertos do Arizona e Texas, nos Estados Unidos; florestas tropicais e semitropicais, no Brasil e o chaco paraguaio. A unidade social dos caititus varia consideravelmente em tamanho, mas eles tendem a formar na natureza grupos sociais coesos e estáveis, de 5 a 15 indivíduos de diferentes faixas etárias, com um ou mais machos e várias fêmeas adultas, repetindo a estretégia dos galos e das galinhas. Existe a hipótese científica, de fácil comprovação, que os caititus costumam viver em grupos, como uma tática para defesa conjunta contra os predadores, já que, como pequenos animais que são, acabam como presas de grandes carnívoros como os pumas e coiotes na América do Norte e de onças-pintadas, pardas e, ocasionalmente, de jacarés no Pantanal de Mato Grosso. 

Os caititus entraram na política de Mato Grosso, notadamente na política da nossa Assembleia Legislativa, graças a uma metáfora do então deputado estadual Percival Muniz, que também já foi prefeito de Rondonopolis e deputado federal constituinte. Percival decretou, em certa altura, que o icônico deputado estadual que foi o contador Jose Geraldo Riva, originário da região de Juara, conseguiu se impor como grande chefe dentro da AL-MT e fazer com que a maioria dos deputados que ele comandava se comportassem como um bando de caititus. Sim, Riva era o chefe e seus caititus sempre serviam obedientemente ao chefe, nos quase 20 anos em que Riva reinou sobre as pautas e os negócios e os cofres da Assembleia mato-grossense. Para os caititus Riva distribuia sobras que caiam da Mesa – e isso sempre foi muito, dado o enorme orçamento à disposição dos parlamentares. 

Riva exerceu o poder com mão de ferro e muita habilidade, mas fazendo tantas estrepolias administrativas que chegou a ser chamado de "o maior ficha suja do Brasil", em reportagens da revista Veja e do jornal O Globo. Acabou por ser alvo de dezenas e dezenas de processos instaurados pelo MP-MT para apurar corrupção no legislativo estadual, notadamente através do falecido promotor Célio Fúrio e do agora procurador Roberto Turin.  

Lembrar que Riva, que surgiu para a política como um nojento sub-poduto do governo de Dante de Oliveira e Antero de Barros, também foi alvo do agora advogado Zé Pedro Taques quando este atuava no MPF e era então tido como um fiscal sério. Notar, en passant, que o irônico Peercival Muniz, na maioria das vezes, também se comportou como caititu dentro da Assembleia e não se tem noticia de que Percival  tenha enfrentado Riva de forma mais combativa quando exerceu seus mandatos, entre 2006 e 2014. 

Os crimes de Zé Riva, depois de tantos processos, acabaram levando este chefe político carismático a assinar uma delação premiada com o MPF e o MPE-MT, na expectativa de escapar de cana dura, detalhando as patifarias que marcaram sua passagem pela Mesa da Assembleia mato-grossense. Traindo a natureza dos caititus – coisa que um Comendador Arcanjo, por exemplo, jamais fez -  o chefe caititu Riva acabou por trair os caititus que comandava, e bateu com a língua nos dentes, lançando sobre os caititus uma série enorme de acusações na delação que ainda continua rendendo desespero nos bastidores da política de Mato Grosso. 

O deputado Romualdo Jr é apenas um dos caititus dedurados por Riva em sua delação mas, graças aos dribles e volteios que marcam a atuação do MP-MT e do Judiciário, em Mato Grosso, está podendo falar em aposentadoria, certamente beneficiando-se dos rendimentos do FAP - Fundo de Aposentadoria Parlamentar -  uma das mais perdulárias criações da Era Riva -  sem que tenha sido até agora mais duramente incomodado pela Justiça. 

Em Mato Grosso, ser caititu é uma forma de tirar proveito da política e que tem garantido a fortuna de um seleto grupo de sanguessugas que sobrevivem às custas do dinheiro do contribuinte. 

Enock Cavalcanti, 68, é jornalista e editor do blogue PAGINA DO ENOCK desde 2009, em Cuiabá, MT 

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