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OPINIÃO MARCIO CAMILO

Linha do afeto

Talvez seguir linha do afeto seja mais interessante para sensibilizar pessoas

24/11/2021 às 15h06
Por: Redação 3 Fonte: MARCIO CAMILO
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Linha do afeto

Ufa! A semana que passou foi muito intensa pra mim. Atualmente, mais consciente da minha negritude, participei (ainda estou participando) como nunca das atividades alusivas ao dia, ao mês da Consciência Negra.

Participei de rodas de conversas, no centro e na periferia. Me inteirei das dores dos meus irmãos quilombolas em Livramento, que estão sofrendo pressão de mineradoras e de fazendeiros…

Fiz duas falas na Câmara Municipal, uma de afeto e a outra mais incisiva, provocativa mesmo.

A primeira fala foi mais orgânica, visceral, emocional. Com tanto afeto, recebi muitos afetos. Muita gente veio me parabenizar emocionada, agradecendo por eu ter compartilhado histórias de como o racismo afetou a minha mãe e a minha vida. “Como isso foi didático para as pessoas terem uma dimensão melhor do assunto”, disseram.

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A segunda fala foi de ataque, de constrangimento. Expus às desigualdades provocadas pelo racismo e a displicência de muitos atores diante do tema. De ataque, fui atacado. Vieram às críticas e aquele tradicional vídeo do Morgan Freeman sobre "consciência humana”. Por sinal, já tem pelo menos uns oito anos que ele já mudou de opinião a respeito do racismo e virou, inclusive, militante do Black Lives Matter.

Críticas - que por mais que algumas sejam tremendamente absurdas e só evidenciam ainda mais o pensamento racista da sociedade brasileira - me fizeram refletir a respeito da minha abordagem quanto ao tema.

Refleti que talvez seguir apenas a linha do afeto seja mais interessante para sensibilizar as pessoas, e não provocar raiva nelas. Porque, honestamente, eu acredito que tem muita gente desinformada, que reproduz o racismo de forma involuntária e que podem ser trazidas para o lado bom da força. Mas dependendo da abordagem, os ânimos podem se acirrar ainda mais. É incômodo a ideia de se imaginar racista.

Percebi muito isso numa conversa recente de grupo de WhatsApp que tive com amigos com quem passei as melhores fases de minha adolescência. Hoje estou à esquerda. E eles à direita, e alguns à extrema direita.

Percebi que quanto mais a minha fala era agressiva, mais agressividade eu recebia daquele grupo. Percebi que minha linha de abordagem provocava respostas ainda mais racistas, num misto de provocação, de pirraça e em tons de deboche.

Notei que muitas dessas falas eram involuntárias e desinformadas, mas num movimento reativo mesmo, no sentido de não dar o braço a torcer, porque se travava de um “debate” e “eu não posso perder o debate”. Também entrei nessa atmosfera de quinta-série. Ninguém sai ganhando nessa história e o que sobra no final é ressentimento e mágoas.

Essa última semana me trouxe muitas alegrias, mas também a percepção de que o racismo é um assunto delicado e que boa parte da sociedade brasileira se irrita muito com a discussão.

Se irritam até por questões compreensíveis, se levarmos em conta, principalmente que por muitas décadas vigorou de maneira hegemônica o discurso sedutor da “democracia racial”, implementado como política de Estado pelo governo brasileiro, a partir de 1930, e que permanece até hoje, muito forte, no discurso político cotidiano, na mentalidade do povão, naturalizando a profunda desigualdade social que existe no país.

Foi depois de um tempo, mais a partir da década de 1960, que o movimento negro e seus e suas intectuais, e exemplo de Lélia Gonzalez; com a contribuição de alguns intelectuais brancos, a exemplo de Florestan Fernandes, começaram a denunciar essa falácia tão bem estruturada pelo Estado, que teve respaldo de produção acadêmica, inclusive.

Diante desse contexto, talvez a melhor linha de abordagem seja a do afeto, da paciência e do diálogo. Como diz minha colega jornalista Juliane Caju, "construir pontes".

Talvez… é que tem horas que a paciência acaba também.

Marcio Camilo é jornalista e músico.

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