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OPINIÃO ROSANA LEITE

É aprendizado? Qual?

Pelo visto, alguém da turma já esperava a situação tal, e resolveu filmar

29/11/2021 às 08h37
Por: Redação 2 Fonte: ROSANA LEITE
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É aprendizado? Qual?

Circulou via redes sociais e jornais eletrônicos nesta semana um trecho de uma aula prática de medicina. O aprendizado do dia seria a intubação em um boneco. Apenas estudantes mulheres estavam a acompanhar as explicações do ‘mestre’.

Os docentes devem a tudo pensar, antes de proferir as suas falas àqueles e àquelas que estarão a aprender. In casu, é visível que o professor está bastante tranquilo no que disse, aliás, como se fosse natural e comum desferir falas desse jaez. Pelo visto, alguém da turma já esperava a situação tal, e resolveu filmar. Antes da fala discriminatória e agressiva, o professor está a manifestar com desdém e escárnio com a aluna que fará o procedimento no boneco. Já com o tubo em mãos, o professor pergunta se havia lubrificado o tubo. Com a resposta negativa da aprendiz, ele dispara: “Quando for estuprada, vai levar o KY ou prefere no seco.”

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Como já dito, o docente desde o começo da gravação demonstra estar fazendo gracejos, como se estivesse a desdenhar da mulher, inclusive da sua competência como profissional. Diz ele: “A ponta tá errada! Deixa ela errar! Vai errar de novo!”

É muito entristecedor ouvir, ver e tomar ciência que situações como essa ainda acontecem. Mais uma vez vale meditar no crédito imprimido na palavra da mulher. Será que se alguém não estivesse com a câmera a postos, saberíamos o que essas discentes estão passando? E não são somente as mulheres a se indignar, pois, se ele tem o costume de agir assim, muitos alunos também se indignaram, com certeza.

É inenarrável a falta que o ensinamento sobre a igualdade de gênero tem feito no país. Muito mais: como essa é uma lacuna que está a fazer vítimas! O desrespeito a elas tem sido escrachado. Sem contar a ausência de empatia e respeito com a academia e com a própria ciência médica.

O vídeo foi colocado nas redes sociais no dia 25 de novembro, que é de grande representatividade para as mulheres, por ser conhecido como o “Dia Internacional Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres.” Não, não há qualquer trégua com elas. Em todos os lugares, independentemente do que já tenham alcançado com o estudo e trabalho, precisam se firmar constantemente.

A informática e a internet têm sido aliadas importantes no enfrentamento à violência contra as mulheres. Algumas situações já vivenciadas de há muito pelas mulheres foram expostas na atualidade, tal como o que se apresenta, e o caso Mari Ferrer. A intimidação das mulheres é assente em variadas circunstâncias, como assevera Lourdes Maria Bandeira: “A violência contra a mulher constitui-se em fenômeno social persistente, multiforme e articulado por facetas psicológica, moral e física. Suas manifestações são maneiras de estabelecer uma relação de submissão ou de poder, implicando sempre situações de medo, isolamento, dependência e intimidação da mulher.”

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.

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