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OPINIÃO 30 de Agosto de 2026, 12:25 - A | A

Domingo, 30 de Agosto de 2026, 12h:25 - A | A

MARCELO PORTOCARRERO

O Tempo Reconfigurado

Aprendemos a escolher, não por indiferença, mas por lucidez, quais batalhas merecem nossa energia

MARCELO PORTOCARRERO

Marcelo Augusto Portocarrero é engenheiro civil.

Marcelo Portocarrero

Marcelo Portocarrero

“A partir de certo tempo a idade não é um ônus, é, sim, um bônus.”

Essa máxima nos convida a rever o pacto que a sociedade ocidental fez com o tempo. Aprendemos a contar os anos como quem conta perdas. O envelhecimento foi narrado como declínio, como o acúmulo de um peso inevitável. Mas existe um ponto de inflexão na existência em que essa aritmética se inverte.

Esse “certo tempo” não mora no calendário. Não corresponde a uma idade exata ou a um sinal no corpo. Ele nasce de uma virada interior, silenciosa e definitiva. É o instante em que o que foi vivido deixa de pesar sobre os ombros e passa a pavimentar o chão sob os pés. É quando a busca aflita por aprovação se aquieta e dá lugar a um acolhimento mais honesto de quem se é.

A partir daí, o tempo muda de textura. Situações que antes nos roubavam o sono e nos lançavam em crises desmedidas passam a ser vistas com a serenidade de quem já assistiu a esse filme.

Aprendemos a escolher, não por indiferença, mas por lucidez, quais batalhas merecem nossa energia. No mesmo movimento, as relações se destilam. A necessidade de quantidade, de agradar a todos e de manter vínculos por obrigação social vai se desfazendo, e fica o essencial: a liberdade de cultivar apenas os afetos recíprocos, aqueles que nos reconhecem e nos sustentam.

E talvez o maior bônus esteja na relação com o próprio tempo. Libertamo-nos dos cronogramas rígidos que a juventude nos impõe, da pressa de chegar, de vencer, de cumprir etapas. O futuro deixa de ser uma ansiedade permanente e o presente, enfim, ganha nitidez. Passamos a habitá-lo, não apenas a atravessá-lo.

Ver a idade como bônus não é negar as limitações que o corpo impõe, nem romantizar o passar dos anos. É compreender que a bagagem que carregamos, feita de sabedoria, de cicatrizes transformadas em aprendizado e de uma clareza maior de propósito, pesa infinitamente menos que as incertezas que nos afligiam quando éramos jovens.

A maturidade, portanto, não é o fim da linha. É o começo do usufruto. É o saldo positivo de uma conta que passamos a vida inteira pagando. Quando abraçamos essa perspectiva, cada ano a mais deixa de ser um peso que se acrescenta e passa a ser um prêmio que a vida nos concede.

Marcelo Augusto Portocarrero é engenheiro civil e escritor.

*Os artigos de opinião são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do Isso É Notícia*

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