Cuiabá, 14 de novembro de 2018

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A eterna promessa de felicidade no capitalismo

A eterna promessa de felicidade no capitalismo
CARLOS NORBERTO SOUZA CARLOS NORBERTO SOUZA

Jornalista, graduando em Serviço Social na Unifesp, blogueiro. Escreve no blog Informação e Crítica sobre política, mídia alternativa, movimentos sociais, Santos e região, etc.

O curta de animação Happiness (2017), do ilustrador e animador inglês Steve Cutts, mostra o cotidiano frenético de uma população de ratos antropomorfizados (ganharam características humanas) em uma sociedade contemporânea, urbana, consumista e individualista.

Em uma cidade superpopulosa, como nossas metrópoles ou megalópoles, os ratos são arrastados por um fluxo caótico que parece levar a lugar nenhum, conforme letreiros de trânsito e do metrô informam (“lugar nenhum”, em inglês, nowhere), onde a competição é incitada ao extremo, o que leva ao isolamento social e ao individualismo — qualquer semelhança não é mera coincidência.

Esta cidade fictícia é bombardeada pela publicidade, que oferece a promessa da felicidade, mas que na verdade é um simulacro de felicidade, frágil, superficial, incompleto, passageiro. Neste contexto, o consumo desenfreado é a busca da realização desta promessa.

Somos como ratos fazendo girar a roda do capitalismo? Ou a imagem mais exata é a de um labirinto (que o vídeo sugere a 1,2 minuto), de onde não conseguimos sequer ver o lado de fora, muito menos achar a saída. Este labirinto é conformado pela ideologia das classes dominantes que condiciona nossa visão de mundo, valores, comportamentos, opiniões, identidades, as relações sociais.

Faço referência ao filósofo alemão Karl Marx, que propugnou que a ideologia dominante de todas as sociedades divididas em classes sociais antagônicas é a da classe detentora dos meios de produção de riqueza — da classe dominante, portanto. Na sociedade capitalista, a burguesia é hegemônica. Além disso, a classe burguesa (ou as frações dela) também é proprietária dos meios de produção ou reprodução simbólica, ideológica e cultural, que servem para justificar e legitimar esta hegemonia.

Temos aqui o ponto de contato com a Indústria Cultural, que surge com o nascimento da sociedade moderna, no bojo da Revolução Industrial, e com as transformações na produção e transmissão dos meios simbólicos. Ou seja, ela é parte intrínseca do processo de consolidação e expansão do capital pelo Globo.

O conceito em si foi cunhado por outros alemães, Theodor Adorno e Max Horkheimer, fundadores da Escola de Frankfurt. Eles analisaram como os valores e práticas de determinado grupo social, ao serem transformadas em bens culturais e inseridos na sociedade capitalista, passam a estabelecer padrões que influenciam as formas de produção e consumo da cultura. O avanço tecnológico beneficiou também a Indústria Cultural, que é a forma principal de difusão e inculcação dessa ideologia dominante que valoriza unicamente o acúmulo de capital e o controle de todas as nossas relações sociais pelas leis de mercado.

Voltando a Happiness, a saga do protagonista e da dinâmica daquela sociedade de ratos revela como somos enquadrados ideológica e culturalmente por uma sofisticada estrutura de produção simbólica, a Indústria Cultural, representada pela publicidade e propaganda, que influencia comportamentos, desejos, sonhos, valores, subjetividades. Neste sentido, o sujeito/ trabalhador tem sua visão embaçada, impedindo-o de se precaver de mecanismos sutis que agem no nível psicológico.

Nesta sociedade dos ratos humanizados – opressora, cinza, poluída, monitorada por câmeras e infeliz – o consumismo, o alcoolismo e as drogas são tentativas de fuga dessa realidade. O culto ao dinheiro/capital também é sintoma desse controle ideológico, criando ilusões que fazem o protagonista de Happiness perseguir falsos potes de ouro em arco-íris inexistentes. Somos nós seres humanos desumanizados?

Assim, os produtos da indústria cultural – publicidade/propaganda, notícias, cinema, novelas, músicas, ou seja, todos os produtos culturais e de entretenimento – são as formas mais poderosas de escapismo, distração ou “incentivo” para que nós sigamos em frente, trabalhando para engordar o capital alheio, perseguindo moinhos de vento, sem questionar o que é fundamental: a estrutura e a essência do poder que sustentam esse estado de coisas. Ou seja, são produzidas falsas promessas de felicidade que visam manter os trabalhadores na roda da acumulação capitalista.

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