Cuiabá, 13 de dezembro de 2017

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EMIR SADER

Aliança? Com quem e para que?

EMIR SADER EMIR SADER

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

- Gato, qual o caminho correto?

- Depende, Alice, para onde você quer ir?

- Não sei, estou perdida.

- Para quem não sabe onde quer ir, qualquer caminho serve.

(Alice no pais das maravilhas, Lewis Carol)

Para a política de alianças, vale a referência. Com quem se deve caminhar? Depende de para onde se quer ir. As alianças dependem da política, de qual o programa que se quer colocar em prática. Os que estão de acordo, cabem. Ha também os que concordam com partes e cabem em parte.

A escolha não é individualizada: com este sim, com aquele não. Do que se trata é de se definir o programa e, a partir daí se define quem cabe. Esse é o critério político das alianças.

O primeiro passo então é compreender qual a situação do Brasil, para definir qual o programa que nos pode sair da crise, restaurar a democracia e retomar o desenvolvimento econômico com inclusão social. A partir desse programa, do objetivo a que queremos chegar, é que se definirão os que querem participar do projeto.

Os objetivos do programa imediato não se definem pelo que a gente gostaria que fosse, mas pelo que se quer, filtrado pelas possibilidades concretas, pelas relações de força, pela força nossa e pela força do inimigo, pelas debilidades nossas e pelas debilidades deles. Não se avança por onde se quer, do jeito que quer, quando se quer. Se avança definindo os objetivos e, dentro deles, os pontos frágeis do campo adversário, por onde se pode mais facilmente avançar.

Em 2003 foi colocada em prática a prioridade das políticas sociais, a partir da definição de que a desigualdade e a exclusão social eram os objetivos fundamentais. E eram, ao mesmo tempo, o ponto mais fraco do neoliberalismo.

Essa definição e a realização dessas políticas foi chave no sucesso dos governos do PT ao longo dos 12 anos de governo. Os que se somaram a essa prioridade couberam na política de aliança. Foi esse o critério e não preferências pessoais por este ou por aquele partido que definiram a formação do bloco social e político que protagonizaram os governos desde 2003.

Fizeram parte do núcleo essencial das políticas desses governos também o resgate ativo do papel do Estado e a política externa soberana. Os partidos que participaram do governo apoiaram, de forma ativa ou passiva, a construção das maiorias parlamentares que possibilitaram que os governos do PT realizassem esses objetivos.

Podemos dizer que, especialmente durante os dois governos do Lula, houve hegemonia do PT nas alianças. Estivessem ou não essencialmente de acordo, o próprio sucesso daquelas políticas fazia com que partidos de outra índole se somassem ao governo. Ice se chama hegemonia.

Ao longo do primeiro mandato da Dilma essa hegemonia foi se desfazendo, com esgarces na política de alianças, até que, no segundo mandato dela, se deu uma verdadeira ruptura, em particular com o principal partido da aliança, o PMDB. As razões foram várias, desde o fim da bonança externa, o que passou a promover uma luta interna mais intensa pela apropriação do excedente, que foi se refletindo no aumento da inflação. Passando pela tentativa da Dilma de cumprir sua promessa de baixar a taxa de juros aos níveis médios internacionais e a enorme resistência e reação do grande empresariado, que começou a se distanciar do governo. Até chegar à falta de discurso por parte do governo, para explicar à população as políticas do governo, para promover a consciência política nos seus beneficiários, conquistando-os politicamente para o governo e para a esquerda.

As políticas de aliança funcionaram e foram indispensáveis para que o governo tivesse sucesso nas suas políticas, durante pelo menos os dois primeiros mandatos. Ao longo do terceiro foi se perdendo a hegemonia, os projetos essenciais do governo foram deixando de gozar do apoio maciço da população, depois de terem tido cerca de 87% de aceitação, porcentagem de apoio do Lula no final do seu segundo mandato. Setores aliados foram se distanciando do governo, que foi ficando isolado politicamente.

Hoje se trata de ter um programa de reconstrução nacional, que comece com o referendo revocatório, pela injeção de reservas para fazer a roda da economia voltar a funcionar, como duas condições iniciais para a viabilidade de um novo governo do PT. É preciso termos consciência clara do grau de devastação que está sendo feito pelo governo golpista, para nos colocarmos objetivos que avancem na recuperação de todos os retrocessos possíveis de serem revertidos.

Nesse sentido terá que ser um governo de unidade nacional, de reunificação do leque mais amplo de forças com que se possa contar, pela dimensão da tarefa de reconstrução que temos pela frente. É o tamanho desses desafios que definirá o arco de alianças, que definirá os objetivos iniciais, que passam pela reconstrução da própria democracia. Quem estiver de acordo, caberá nesse amplo bloco de forças que o Brasil precisa para resgatar a democracia, o desenvolvimento econômico, a justiça social e a soberania externa.

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