Cuiabá, 15 de novembro de 2018

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GONÇALO ANTUNES DE BARROS

O Manoel, pantaneiro

GONÇALO ANTUNES DE BARROS GONÇALO ANTUNES DE BARROS

Juiz de Direito em Cuiabá

Morto não está Manoel de Barros. Apenas se tornou materialmente transparente, apesar de que a transparência e a autenticidade ser a sua marca. Afinal, morre quem deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos? 

Cora, em versos, vaticina que não. Não mesmo, o afirmo, vive na sua intuição e sensibilidade, inquietação dos que nasceram para a história.

Morre quem assim suspirou? – ‘A poesia está guardada nas palavras - é tudo o que eu sei./Meu fado é o de não saber quase tudo./Sobre o nada eu tenho profundidades./Não tenho conexões com a realidade./Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro./Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas)./Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil./Fiquei emocionado./Sou fraco para elogios’-.

A essência é elogio aos que sabem que nada sabem, ou quase nada de tudo. A finitude é o destino da soberba e o manejo das palavras a solidão da sabedoria. Aquele que inspira dá o galardão aos de transpiração eloquente. Nada é por acaso, nem a existência do que não se vê e vive na metafísica dos sentimentos, é combatente heroico do existencialismo pagão. 

Se um caudilho se mata para entrar para a história, que dizer daquele que honrou seus versos para renascer em ciclo eterno? 

Manoel de Barros é singular, e nesta não soou tímido, mas gazeteiro. Barulhento e intrépido em pântano silencioso. O vi, apertei-lhe a mão, aqui, em terra cuiabana, em largo sorriso e papo generoso; e, agora, o saúdo em memória da passada de degrau, ou melhor, de grau. Os mestres são ascendentes.

Quem já passou por esta vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu. A vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu (Vinicius). Os gigantes se doam, a causa lhes pertence. 

Por poema canta-se um texto escrito em linhas chamadas versos, que sensibiliza, dramatiza, resume em emoções um ‘eu’ interagente. Manoel de Barros não se esquivou, enfrentou as palavras como elas se apresentavam em seu imaginário. Rascunhou e refez para a compreensão e deleite de seus leitores. Doou-se.

O poeta cuiabano estará sempre conosco, dele não abrimos mão. Saiba, poeta pantaneiro, que o seu sentir, as pérolas que por cá cantou, nos são caras e preciosas, imorredouras como os aguapés a cobrir a imensidão do Pantanal.

Renovamos a fé, defrontamos o abismo; contigo, gigante da poesia, nos salvamos, a crueza dos néscios não achibantará os escolhidos da utopia que sabe sonhar. 

Deus o abençoe, sempre e sempre. 

É por aí... 

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