Cuiabá, 14 de novembro de 2018

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EDUARDO BONZATTO

O sistema

EDUARDO BONZATTO EDUARDO BONZATTO

Professor da Universidade do Sul da Bahia e pernacultor

O sistema conquista a estabilidade com a hegemonia da racionalidade. Mas encontra a finitude da entropia quando um zé ruela qualquer, munido não mais que o pensamento do caos, atinge a mônada, a menor parte desse sistema, com a lâmina de Occan, a simplicidade que desestabiliza completamente sua arquitetura.

Só existe um sistema: criador, produtor e reprodutor da desigualdade. Só existe uma ideologia: a que naturaliza essa desigualdade no tempo e no espaço, na história e na geografia, na ciência e na religião, no campo e na cidade, na mente e no corpo, nas crenças e nas certezas.

Nesse sistema não existem dominadores ou dominados: todos os usuários da racionalidade divulgam e reproduzem essa desigualdade (o homem na mulher e vice-versa, o pai e a mãe no filho e na filha e vice-versa, o professor no aluno e vice-versa, o patrão no colaborador e vice-versa, em hierarquias horizontais). A razão instrumental é uma prisão cartesiana da razão e sua utilização é já mecanismo de reprodução da desigualdade. É uma ética e uma moral.

Se a razão é o império desse sistema, torna-se absolutamente redundante utilizar a razão para confrontá-lo ou ameaçá-lo.

A razão é previsibilidade, sempre. “Penso, logo existo!”. Causa e efeito da dinâmica da reprodução. O pensamento é o dispositivo da racionalidade. Seu bólido, seu invólucro. O pensamento é dicotômico e é sistêmico para garantir a reprodução da desigualdade. Manifesta-se nos discursos com propriedade e só o diálogo pode fazer frente a essa forma de convencimento. Mas ainda assim o diálogo pode ser pervertido pelas argumentações da maiêutica. Então o diálogo é frágil para subverter os determinismos da racionalidade.

A mônada desse sistema é o menor conjunto de sua fundação: a desigualdade entre dois seres. Tudo que edifica essa desigualdade pode ser rastreado a partir da mônada: preconceito, negação do outro, egoísmo, competição, objetificação, reificação, coisificação. Compreender que antes da desigualdade econômica existe a desigualdade simbólica é fundamental para subverter o sistema, pois somos nós que alimentamos sua energia e fúria. Alimentamos com nossas crenças na desigualdade natural.

É compreensível que aqueles que se julgam mais instruídos, que dominam os discursos mais adaptados à busca da igualdade e da justiça, sejam os mesmos que não abdicam em nenhuma hipótese dos privilégios que detêm.

Isso torna o sistema previsível, controlável, consistente. Daí a dificuldade em escapar desses determinismos.

Aceitar que é preciso deixar de servir ao poder e servir ao teu próximo é ato de rebeldia fundante do fim desse sistema em nós, pois somos os únicos capazes de tomar tal decisão. Mas essa atitude sutil e profunda é fruto de um contorno do lugar da racionalidade.

O samadhi é um estado de contemplação capaz de suspender o hábito da racionalidade, em que se sente a profunda conexão com o universo e com todas as criaturas. É um sentimento pleno de indeterminações. É o caos e sua manifestação absoluta: imprevisibilidade. Só o sentimento é capaz de nos conectar com o caos que é vida plena, incontrolável, fluida, generosa.

Só no âmbito do sentimento podemos reconhecer que a desigualdade não é natural, mas imposta, ofertada por ideologias que nos convidam a partilhar de seus privilégios.

Contemplação é caos, ausência de controle, elo com a generosidade. Contemplar é simples e não necessita de nenhuma iniciação. Basta se ligar a tudo e a todos sem prevenções, sem precauções, sem exigências, sem pré-condições. Contemplação é aceitação incondicional. Contemplação é conexão.

Cessar a racionalidade é abdicar da boa intenção, da resolução de problemas, das resistências, dos confrontos, dos conflitos, da preocupação com os outros. É anular a força do ego que tudo sabe, que chora, que esperneia e que nos mantém nas zonas densas do sofrimento.

Contemplar é abraçar a alegria e a felicidade de viver continuamente sob as bênçãos tranquilas da gratidão. É aceitação e gratidão. É simples e complexa a contemplação. É o caos. É fluir no caos e se tornar o caos. Se tornar imprevisível e aceitar o imprevisível. É mover-se no repouso.

É repousar no movimento, pois a contemplação prescinde de esforços, de penitência, de renúncias dolorosas. Quando deixamos no chão o saco pesado de tijolos que voluntariamente carregamos por anos a fio em busca de futuros, nos tornamos imediatamente leves. O pesado fardo da racionalidade compromete nosso movimento com as promessas de uma vida melhor amanhã. Por isso o serviço da reumanização é tão importante, pois é imediatamente realizado sem que nenhum sinal de submissão dele se evidencie.

Servir inunda o sentimento e o potencializa. Mas vede, há que se acautelar com o ego, que adora se sentir útil e bom. Servir, aqui, é uma atitude a princípio cautelosa, pois não quer fazer o bem ao próximo. É o teu propósito servir, incondicionalmente. Cada ação tua, cada movimento de conexão está permeado pelo serviço. Tu não o faz pelo outro, o faz porque é teu propósito. Assim, esse servir não é glamoroso ou espetacular, mas parte de tuas mínimas atitudes. Jamais será notado pelo próximo, pois está em sintonia com tua existência, não com a dele. O outro não é condição do teu servir.

O teu serviço é ordinário em tuas ações. Jamais é um servir atencioso ou cuidadoso, mas tão natural que não transparece.

A palavra TRABALHO origina-se num instrumento de tortura, TRIPALIUM. Carrega todo o fardo da desigualdade em sua etimologia. A palavra SERVIÇO, por outro lado, origina-se em SERVIR. Servir não é submissão, mas aceitação das contingências que as conexões nos presenteiam.

No servir não precisamos forçar as conexões. Estamos abertos a todas, mas cada um lê o mundo e a realidade como quer e pode. Daí que servir nada tem a ver com bondade. É um propósito de vida, sem urgências, sem pressa, sem determinismos, sem previsibilidades.

Depois de tomada a decisão de servir, passa a movimentar-se sem intenção, pois a intenção já é desnecessária. Tu vives aberto para tudo e todos.

Mas veja, tua trajetória de vida te formou, te deformou, te conformou. Tu és tuas idiossincrasias. Elas são “naturais” em ti. Te caracterizam e se projetam para fora de si dando-se a ver aos outros. São tuas máscaras sociais. Portanto, não se esforce em negá-las. Como o servir não é intencional, tu podes continuar a ostentar essas máscaras sem culpas ou delicadezas. Sem precauções.

As atitudes de serviço são simples e despojadas de edulcorações. Jamais são concessões ou condescendências, que reduzem o outro a uma vítima. No servir tu podes ser rude ou irascível, pouco importa. O servir pode ser negligente ou atencioso. Mas o servir não pode ser tolerante ou paciente, pois emana de você com naturalidade, sem esforço e encontra o outro sutilmente, sem alarde, interpenetrando a conexão como energias suaves e leves.

O servir não é nunca presunçoso, pois emana involuntariamente de ti. Passa a ser tua natureza servir. O ato de servir é invisível.

Com o servir, o tempo da racionalidade cessa sua importância e tem lugar o tempo do sentir, do sentimento. Tu abandonas suavemente a prisão cartesiana da razão e flui no sentimento. Foi tua escolha ser livre e agora és.

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